Os mortos (2016)

Direção e roteiro: pedro achiles e stefano calgaro

Fotografias: carolina sulzbacher e fábio lima malheiros

Montagem: stefano calgaro

Mixagem de som: guilherme cenzi

Baseado num conto de cesare pavese

Exibido na mostra corsária do 23° festival de cinema de vitória

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revista garupa, 2 poemas

muitos aqueles que nasceram com os muros caindo na fissura
de achar os sonhos
foram simplesmente envelhecendo
vendo as imagens parindo
no meio do rebuliço
sem haver tempo de medi-las, precisa-las
o que exatamente faríamos
quando o mundo estava à nossa entrada
e não podíamos cerca-lo como bem
o entendêssemos
como cercam áreas para estacionamentos
apenas ver
sabendo que
ver é um estado de catatonia
porque nenhuma ação a suplantará
enquanto verbos ainda medirem
a altura dos seres
porque nenhuma paixão
é suficientemente grande que esconda a tremura
para consegui-la por si mesma

talvez consigam ver

uma ferida espana na central
a ofuscam
as luzes em torno

***

Primeiro nos marcam nas têmporas
Com brasas invisíveis que só os brutos vêem
E se depois com as mãos
Fazemos círculos no ar que se desfazem
Então no chão ficam as sombras das coisas que erguemos
E se com os pés visitamos novos territórios
É porque há um lugar
Em nossas têmporas que não fecharam
E ninguém nos reconhecerá na rua.

 

revista garupa

Da última vez que Mariana olhou para cima

da última vez que mariana olhou para cima
havia o céu
e luz solar
e algumas nuvens pairando iludindo
que o céu movia
quando eram elas que moviam
nas maiores partes do dia mariana olhava para cima e havia teto
e algumas vezes havia Heródoto ou caio mas também eliza
e osíris se anunciando numa cor de pulcra
ou burgandy e o sorriso de mariana virava
outras vezes que olhava para o céu havia apenas a ilusão e a vontade de que o tempo corra
em outras chuva
em algumas nuvens o novo sorriso de juliana reconquistado
e quando mariana coçava o umbigo e gemia
havia um feixe da internacional
ou talvez uma prismática acumulação de agua condensada
espraiando em arco a bandeira da diversidade sexual
muitas vezes olhava para o céu
mas o teto bloqueava
e muitas vezes o teto era o céu
ou uma redoma
teto branco transparente ou parreiras de uva
ou guirlandas sob as quais era bom os lábios
de alguém nos lábios e a mão na nuca
e outras eram pontas de figueiras
que os olhos de mariana viam
com luz azulada desfocada do próprio céu
própria atmosfera em que se é
quando olhava para cima e havia alguém
como Heródoto
sim era sempre Heródoto
que queria
pois havia o suor e o gemido
e a alegria
e a pequena morte

enfermaria 6

sylvia-plath-hires-cropped

Sylvia Plath

“história de uma banheira”

A fotográfica câmara do olho
grava as nuas paredes pintadas, enquanto uma luz elétrica
esfola os nervos de cromo do encanamento;
tal pobreza assalto o ego; pega
nua no quarto  tão somente atual,
no espelho do lavabo a estranha
veste um sorriso público, repete nosso nome
mas escrupulosamente reflete o terror usual.

Quão culpados nós somos quando o teto
não revela rachaduras que podem ser decifradas? Quando
o lavatório sustenta não ter mais chamada santa
que ablução física, e a toalha secamente
nega que as caras ferozes do troll espreitam
em suas dobras explícitas? Ou quando a janela,
cega de vapor, não admitirá a escuridão
que envolve nossas expectativas em sombra ambígua?

Vinte anos atrás, a banheira familiar
gerava uma leva de presságios; mas agora
a água da torneira não jorra perigo; cada caranguejo
e polvo – esperneando logo além da vista,
esperando por alguma pausa acidental
em rito, para atacar – definitivamente se foi;
o mar autentico os nega e arrancará
a carne fantástica até o osso.

Tomamos o mergulho; sob a água, nossas pernas
vacilam, levemente verdes, estremecendo diferente
da genuína cor de pele; podem nossos sonhos
manchar as linhas intransigentes que desenham
a forma que nos encerra? O fato absoluto
Invade mesmo quando o olho revoltado
está fechado; a banheira existe atrás de nossas costas:
suas superfícies reluzentes são em branco e verdadeiras.

Ainda assim, os ridículos flancos nus incitam
a fabricação de algum tecido para cobrir
essa dureza; a precisão não deve seguir à solta:
cada dia exige criarmos nosso mundo inteiro de novo,
disfarçando o horror constante em um casaco
de ficções multicores; mascaramos nosso passado
no verde do éden, fingimos que a fruta iluminada do futuro
pode brotar do umbigo deste desperdício presente.

Nesta banheira em particular, dois joelhos se sobressaem
como icebergs, enquanto mínimos pelos castanhos se arrepiam
nos braços e pernas em uma franja de algas; sabão verde
navega a maré que jorra dos mares
rebentando em praias legendárias; com fé
nós deveremos embarcar em nosso navio imaginado
e navegar selvagemente entre ilhas sagradas da loucura
até que a morte estilhace as fabulosas estrelas e nos torne reais.


“tale of a tub”

The photographic chamber of the eye
records bare painted walls, while an electric light
lays the chromium nerves of plumbing raw;
such poverty assaults the ego; caught
naked in the merely actual room,
the stranger in the lavatory mirror
puts on a public grin, repeats our name
but scrupulously reflects the usual terror.

Just how guilty are we when the ceiling
reveals no cracks that can be decoded? when washbowl
maintains it has no more holy calling
than physical ablution, and the towel
dryly disclaims that fierce troll faces lurk
in its explicit folds? or when the window,
blind with steam, will not admit the dark
which shrouds our prospects in ambiguous shadow?

Twenty years ago, the familiar tub
bred an ample batch of omens; but now
water faucets spawn no danger; each crab
and octopus — scrabbling just beyond the view,
waiting for some accidental break
in ritual, to strike — is definitely gone;
the authentic sea denies them and will pluck
fantastic flesh down to the honest bone.

We take the plunge; under water our limbs
waver, faintly green, shuddering away
from the genuine color of skin; can our dreams
ever blur the intransigent lines which draw
the shape that shuts us in? absolute fact
intrudes even when the revolted eye
is closed; the tub exists behind our back;
its glittering surfaces are blank and true.

Yet always the ridiculous nude flanks urge
the fabrication of some cloth to cover
such starkness; accuracy must not stalk at large:
each day demands we create our whole world over,
disguising the constant horror in a coat
of many-colored fictions; we mask our past
in the green of Eden, pretend future’s shining fruit
can sprout from the navel of this present waste.

In this particular tub, two knees jut up
like icebergs, while minute brown hairs rise
on arms and legs in a fringe of kelp; green soap
navigates the tidal slosh of seas
breaking on legendary beaches; in faith
we shall board our imagined ship and wildly sail
among sacred islands of the mad till death
shatters the fabulous stars and makes us real.

Audre Lorde

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carvão

Eu
É o negro total, sendo falado
Do interior da terra.
Há muitos tipos de aberto.
Como um diamante se torna um nó de chama
Como um som se torna palavra, colorida
Por quem paga o quê por falar.

Algumas palavras são abertas
como um diamante sobre janelas de vidro
gritando dentro do choque do sol passando
então há palavras como apostas batidas
num caderno de notas – compre e assine e rasgue –
e venham o que quer que sejam todas as chances
o cepo permanece
um dente com a borda irregular arrancado.
Algumas palavras vivem em minha garganta
Reproduzindo-se como víboras. Outras conhecem o sol
Procurando como ciganos sobre a minha língua
explodir por meus lábios
Como jovens pardais estourando de suas cascas.
Algumas palavras
Me atormentam.

Amor é uma palavra, outro tipo de aberto
Como um diamante se torna em nó de chama
Eu sou negra porque venho do interior da terra
Tome minha palavra por joia em tua luz aberta.

coal

I
Is the total black, being spoken
From the earth’s inside.
There are many kinds of open.
How a diamond comes into a knot of flame
How a sound comes into a word, coloured
By who pays what for speaking.

Some words are open
Like a diamond on glass windows
Singing out within the crash of passing sun
Then there are words like stapled wagers
In a perforated book—buy and sign and tear apart—
And come whatever wills all chances
The stub remains
An ill-pulled tooth with a ragged edge.
Some words live in my throat
Breeding like adders. Others know sun
Seeking like gypsies over my tongue
To explode through my lips
Like young sparrows bursting from shell.
Some words
Bedevil me.

Love is a word another kind of open—
As a diamond comes into a knot of flame
I am black because I come from the earth’s inside
Take my word for jewel in your open light.