Audre Lorde

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carvão

Eu
É o negro total, sendo falado
Do interior da terra.
Há muitos tipos de aberto.
Como um diamante se torna um nó de chama
Como um som se torna palavra, colorida
Por quem paga o quê por falar.

Algumas palavras são abertas
como um diamante sobre janelas de vidro
gritando dentro do choque do sol passando
então há palavras como apostas batidas
num caderno de notas – compre e assine e rasgue –
e venham o que quer que sejam todas as chances
o cepo permanece
um dente com a borda irregular arrancado.
Algumas palavras vivem em minha garganta
Reproduzindo-se como víboras. Outras conhecem o sol
Procurando como ciganos sobre a minha língua
explodir por meus lábios
Como jovens pardais estourando de suas cascas.
Algumas palavras
Me atormentam.

Amor é uma palavra, outro tipo de aberto
Como um diamante se torna em nó de chama
Eu sou negra porque venho do interior da terra
Tome minha palavra por joia em tua luz aberta.

coal

I
Is the total black, being spoken
From the earth’s inside.
There are many kinds of open.
How a diamond comes into a knot of flame
How a sound comes into a word, coloured
By who pays what for speaking.

Some words are open
Like a diamond on glass windows
Singing out within the crash of passing sun
Then there are words like stapled wagers
In a perforated book—buy and sign and tear apart—
And come whatever wills all chances
The stub remains
An ill-pulled tooth with a ragged edge.
Some words live in my throat
Breeding like adders. Others know sun
Seeking like gypsies over my tongue
To explode through my lips
Like young sparrows bursting from shell.
Some words
Bedevil me.

Love is a word another kind of open—
As a diamond comes into a knot of flame
I am black because I come from the earth’s inside
Take my word for jewel in your open light.

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Escalas de protagonismo no ronche fort

I

da última vez, todos nós nos excluímos.
tudo
o que poderíamos ter sido é:
uma onda
como a água te divide em dois
e as luminâncias
(no meio de uma tempestade)
e conseguem dizer mas não se sustentam:
arrastam com sonhos palavras de ordem
(marcação que eu possa já ter cruzado):
vocês tentarão descrever sem êxito à que me pareço antes de dizer as cidades com melhor custo benefício de perder os declames
– os oh’s e ah’s os cliques e flashes –
ficcionalizamos os públicos passando em paredes de aço e em esferas
mas mesmo assim não foram dessa vez alegando perda de algo a falar em genéricos antes da viagem

II

não volto lá sozinho
não vejo como escovar os dentes todos os dias em outro continente na mesma proporção que se frequenta a bebida local
talvez muitos lugares não me lembre

III

reclames a formar bolas e esferas com a língua.
uma praia emporcalhada de turistas –
à disfarce nativo e belo.
os dentes
essa barreira à brecar tudo
trouxas dedos a física da língua
este braço fazendo movimento de cisne a toda uma unidade de extensão dos pés direitos das calhas*:
o que seríamos sem o estorvo?
(quando coloca as palavras em seleção
prefere um desenho de indicadores
acham que tem uma distinção
um fungo na “rivera”
constante deslocamento que não deixa prestar atenção no que não seja enquadramentos)

IV

ela
já esteve procurando também um apartamento
um emprego
uma tautologia
(mais guinada à quiromancia
a descobrir as linhas das digitais no registro geral
-também é ele
uma quiromancia impondo coisas)
o beco não é essa coisa que se mira e se chega com as mãos
algumas ferramentas de luz não encarnamos.

*as senhoras podem ver de engate à emplastro
sondas marinhas juntando grama
noturno chã ou furão de ferro
ceifas britadeiras quedas de temperatura
tudo da mesma maneira untando as mãos
nós íamos
e agora não vamos mais
levando em consideração os joelhos e as colunas fechando círculos
bolsões de sonos
a corda que fica suspensa partindo uma série de considerações sempre aos despejos:
chuvas fazendo anatomia de mapas
quedas no armazém retendo
algumas formas de vida
algumas formas de empacotamento
mãos cerrando calhas
mãos fazendo teto
mãos à procura das luzes em busca do contentamento
as senhoras poderão se alojar no lugar menos possível
algumas ferramentas de luz não encarnamos

Enfermaria 6

Em algumas quinas
calham de cair com olhos nos fios,
alguma linha,
alguma linha em que se delongam
romper,
por que diabos chegam moendo os ossos,
bigorna, tímpanos,
arritmia,
acoplados ao ruído,
não consigo ver
onde se perdem de si
-adoraria ver onde se perdem
de si.

enfermaria 6

a vez que você sonhou com W. W.

é engraçado que as coisas resultem nisso:
linha do Nilo como se fosse primeira vez
mas na verdade
cidade imaginada à dois:
mão sobre mão
eu mostro o que te digo
olha como tossem e como resfriam
os donos da quinta chamada das luzes fazem as coisas
como a terceira penetração pergunto: travessia permanente
olho: como eles colocam força nisso das imagens como se protuberam
e se esforçam dos buracos
até chegarem no primo que lê amostras
que ninguém lê: até que ponto se firmam nas luzes
leem entre os olhos
não um lócus
o terreno baldio
cercado de mar em que você fica perdida
no meio dos costumes
deitada
pedindo um campo árido cheio de flores
ficando viva (não como todos à sua volta)
descalça
arrastando pedras
(fez um sol maior: um terço de ano
que não te vejo):
aos domingos vou às encruzilhadas
escrevo vendetas: xisto:
vou à encruzilhadas procurando meu nome
acho são longuinho fumando pedra todas as terças
“vim te buscar
mas não sei se te levo” 
os seus desejos
matando o tempo enquanto você não sabe de nada
faz nada aguardando
 a forma ilusória de vida
que assumem as meninas aos 30 anos
os movimentos que alguns fazem aos ônibus
que chegam e partem a forma ilusória de vida
que assumem os meninos aos 30 anos
aquilo nas filas
as manias vindas a cada vestígio – e no que
isso resulta? –
os cercos
em que é preciso avisar
do vestígio tocar as coisas com o pulso
os sustos
sempre a acontecer
a ideia volúvel de imaginar os rostos que lerão
no futuro ao momento que se escreve
(as imagens matando o tempo)
o bafo quente como os que riem e não olham
pra trás absurdamente como suas falas se limitam no espaço
nos lugares mal sinalizados
– os lugares sem vestígios –  
os nomes que quase chegam ao país vizinho
sem um apelido
podem te procurar pra sempre que te acharão
todas as vezes

porem neste filme são todos loucos
cozendo as mãos em almíscar:

defensores do estado jogando badminton com a tua presença
oráculos do jogo do bicho
enxergando todas as coisas onde não estão
o lirismo: o bem último da paranoia

e por exemplo: como te dizem o nome? Por onde
chegam quando te dizem
o nome como se te contassem pela primeira
vez teu nome
e o assoprassem no ar depois de anos
se desfizesse aos poucos
em farelos nos queridos
deixando aquilo como que alguns no museu
se afastam mais dos pedestais
e dizem tem algo faltando ali tem
uma mancha.

 

 

enfermaria 6

Bernadette Mayer (1945 – ), por Stefano Calgaro

escamandro

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Bernadette Mayer é uma poeta, ensaísta e artista visual Nascida em Brooklyn, Nova Iorque. Tanto associada à escola de nova Iorque quanto ao L=A=N=G=U=A=G=E=P=O=E=T=R=Y, ficou conhecida por uma exposição que mesclava fotografia e narração chamada memory, organizada em 1971. Ela foi professora, editou a 0 to 9 magazine com o artista Vito Acconci e estabeleceu a editora United Artists Book com Lewis Warsh, publicando poetas como Robert Creeley, Anne Waldman e Alice Notley. Publicou diversos livros de poesia, estreando com ceremony latin (1964). Os poemas a seguir foram extraídos do livro A Bernadette Mayer Reader, que contém poemas e excertos dos livros Ceremony Latin, Story (1968), moving (1971), memory (1976), studying hunger (1976), the Golden book of words (1978), midwinter day (1982), utopia (1984), mutual aid (1985), sonnets (1989), the formal field of kissing (1990), the desires of mothers to please others in letters (1994).

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revista garupa – 2 poemas

Pulo
faço a mazurca
coloco um nome na ribanceira com grilos
: rumor de trilhas:
da vez em que se perde e assim chegam os dois:
tremor parados,
olhos volteiam
– à vez que disse
abre-te sésamo ao bibelô das bocas com parabelos –
ou quase isso. Nós
os trava línguas.
Escrevo isso com a voz de outro homem em minha cabeça
lhe mando gracejos bafos quentes
gêiseres.

***

entusiasta partidária do desespero
futura gansa engasgando pela morte da sétima menina que não compreendeu seus sonhos
esgarçados no meio de lagos falsamente planos
sabe
que é preciso que algo colabore pra continuar remando
para
e se contorce com as gomas e gemas em interdição:
dois são os gatos que dizem não ter mais tempo para decifrar símbolos
mas produzir modulações com a pata em um folego contínuo sem avançar
(gatos não são narcisos)
se distorcem em quebras
conhecem a liberdade em calhas curiosamente secas
como único canal

Revista garupa

Denise Levertov, por Stefano Calgaro

escamandro

levertov

Denise Levertov (1923-1997) nasceu em Ilford, Inglaterra, e foi poeta, tradutora, ensaísta, editora e professora. Com doze anos enviou alguns poemas a T. S. Eliot, que a incentivou a prosseguir. Há em sua vida três fatores que permearam muito sua poética: 1) a educação informal e religiosa que teve pelos pais; 2) ter servido durante a Segunda Guerra como enfermeira, o que influenciou muito o seu engajamento social e político, algo que se intensificou na década de 60 e 70 (escrevendo alguns poemas sobre a Guerra do Vietnã, por exemplo) e que permeou toda a sua obra poética, direta e indiretamente; 3) a ida (sem retorno) para os Estados Unidos na década de 40, onde lecionou em diversas universidades ao longo de sua vida e influenciou-se muito com os poetas de Black Mountain – W. Carlos Williams, H. D., Charles Olson, Kenneth Rexroth e Wallace Stevens

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